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quarta-feira, 8 de Setembro de 2010
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VÍTOR POMAR
Curriculum Vitae
Biografia
Vítor Pomar nasceu em Lisboa em 1949. Frequenta as Escolas de Belas-Artes do Porto e Lisboa (66-69). Emigra para a Holanda em 1970, onde frequenta a Academia Livre de Haia e a Academia de Arte de Roterdão, onde completa estudos em 1973. Ensina serigrafia na Academia Livre de Haia (73-74). Trabalhou no quadro do Regulamento dos Artistas Plásticos (BKR) em Amesterdão entre 1976 e 85.
Utiliza no seu trabalho técnicas tão variadas como a fotografia a preto e branco, o cinema experimental em 16mm e Super 8 e o vídeo. No que se refere à pintura, a utilização exclusiva do preto e branco marca quase toda a sua produção (77-85). Posteriormente, desenvolveu um projecto de uma série de esculturas monumentais.
Visita o México em 1974 com uma bolsa do Ministério da Cultura da Holanda e trabalha durante cinco meses em Nova Iorque em 82.
Estabelecido em Portugal desde 1985, funda e dirige a Associação cultural Casa-Museu Álvaro de Campos em Tavira (87-89). Frequenta o curso de Gestão das Artes dirigido pelos professores Joan Jeffri da Columbia University e Jorge Calado, no Instituto Nacional de Administração, 1989.
Viveu em Lisboa entre 90 e 95, período em que se ausentou longamente em viagens de estudo na Índia do Norte, junto de alguns grandes lamas tibetanos. Regressou ao sul de Portugal em 95 onde deve retomar a prática da pintura, interrompida desde o seu regresso do exílio.
Está representado em diversas colecções, nomeadamente:
Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento
Caixa Geral dos Depósitos
Fundação Calouste Gulbenkian
Fundação Casa de Serralves
Ministério das Finanças
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Exposições individuais
1970 Galeria Quadrante, Lisboa 1973 Galeria `t Venster, Roterdão 1974 Galeria Arvil, México -Casa del Lago, México 1976 Galeria de Hondekop, Amsterdão 1977 Bimhuis, Amsterdão 1978 Maison des Amendiers, Paris Bimhuis, Amsterdão 1980 Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa Museum Fodor, Amsterdão Bimhuis, Amsterdão 1981 Cooperativa Árvore, Porto Casa Palmeira, Porto Galeria Bocage, Setúbal PS122, Nova Iorque 1982 Bimhuis, Amsterdão Atelier, Amsterdão 1984 Maison Descartes, Amsterdão Atelier, Amsterdão 1985 Galeria Ana Flores, Lisboa Atelier, Amsterdão 1987 Galeria EMI-Valentim de Carvalho, Lisboa Galeria Artefacto 3, Lisboa 1988 Galeria Spatium, Tavira Casa-Museu Álvaro de Campos, Tavira 1989 Galeria Câmara Municipal Amadora 1990 Galeria EMI-Valentim de Carvalho, Lisboa 1991 Galeria Graça Fonseca, Lisboa 1993 Galeria Graça Fonseca, Lisboa 1996 Galeria Valentim de Carvalho, Lisboa
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Exposições colectivas
1970 Biennale Internacionale de l'Estampe de Paris 1972 Biennale Internacionale de l'Estampe de Paris
1975 Gravura Contemporânea Portuguesa, Paris, Londres 1976 16mm Film Festival, Montreal 1977 Alternativa Zero, Lisboa 1980 Film International, Roterdão 1981 Bienal de Desenho LIS'81 Film International, Roterdão Cinéma Différent, Hyères, França 1982 Artistas Portugueses no Estrangeiro, Lisboa 1983 Made in Holland, Setúbal 1984 Artistas Portugueses na Holanda, Amsterdão 11 Jovens Pintores Portugueses, Lisboa Made in Holland, Porto Super 8 Film Festival, Galeria Makkom, Amsterdão 1988 Jovem Escultura Portuguesa, Fundação Serralves, Porto 1989 Galeria Fluxus, Porto 1992 Colecção
Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 1993 Colecção Caixa Geral de Depósitos, Lisboa
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Filmes
1976-78 R, 16mm, 100 min. 1980 Musician's Portrait, 16mm, 40 min. 1981 My Education, 16mm, 35 min.
1983 Portugal Revisited, 16mm, 15 min. 1982-85 Diary Notes, S8, 100 min. 1982 In Templum, vídeo, 60 min, inacabado. 1983-84 Dharma, vídeo, 360 min.

VÍTOR POMAR
Meditação e criatividade
Comunicação apresentada no âmbito da II Semana de Estudos das Religiões
Universidade Nova de Lisboa ~ 18 de Junho de 1990
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Índice
1. «Ver as coisas como elas são»
2. A Arte como meio de crescimento espiritual
3. Desligue o piloto automático e venha à grande festa do vazio nas suas infinitas manifestações
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1. «Ver as coisas como elas são»
(...)
Embora a mente seja mais rápida do que o vento e talvez até do que a própria luz, o desenvolvimento espiritual é um processo lento e que deve ser contínuo. Nesta perspectiva, a chegada ao ocidente da sabedoria oriental e seus métodos de aproximação e conhecimento da natureza do espírito e da realidade, está ainda a dar os seus primeiros passos. Decerto que não é já amanhã que vamos conseguir estabelecer a diferença entre o conhecimento que julgamos ter da realidade e a percepção que dela temos.
São muitos os séculos que passaram desde que a cultura hebraica se impôs pela certeza das suas inovações mais ou menos corroboradas pelo cristianismo, a saber, o monotaísmo e o tempo linear com o seu registo que é a História, apresentados e definidos como um imenso progresso em relação aos conceitos a que se contrapõem, a saber, o panteísmo e o tempo cíclico.
Podemos no entanto avançar que se trata certamente de um falso progresso, apesar de ter permitido o desenvolvimento de toda a cultura ocidental: não é por acaso que a nossa cultura é toda voltada para o curto prazo. A ideia do Deus único permite desde logo uma projecção do eu, difícil ou impossível de impedir, pelo menos para leigos. O mesmo já não acontece com o panteísmo, que, embora apressadamente classificado de bárbaro e primitivo, é sempre mais flexível e contraditório, e que acaba por corresponder mais de perto a uma realidade por isso mesmo menos empobrecida, sobretudo a nível da psicologia profunda.
Facilmente reconhecemos a utilidade prática do estabelecimento do tempo linear, tal como é com a geometria euclidiana e não outra que o topógrafo resolve os seus problemas quando se trata de traçar uma nova estrada. Haverá no entanto que fazer um esforço para descobrir que o tempo linear se situa numa escala ou dimensão diferente daquela em que podemos falar do tempo cíclico.
Qual será a relação que se pode estabelecer entre estes dois conceitos, outra que a da exclusão mútua?
A hipótese que aqui deixamos em aberto é a de que o tempo linear de algum modo se inclui no tempo cíclico, conceito este que se situa mais próximo da realidade, tão dificil de conhecer...
É exactamente acerca da possibilidade de conhecimento desta realidade que podemos aqui fazer uma observação pertinente. A nossa sobrevalorização da racionalidadde só peca na medida em que não reconhece facilmente os seus limites e acaba por ser apanhada nas próprias malhas. Senão vejamos: parece óbvio que o conhecimento que formamos da realidade se baseia na observação. Ora esta observação é transmitida pelos órgãos dos sentidos. É esta actividade, em combinação com a mente pensante que impede a formação duma visão clara ou, como dizem místicos e sábios de todos os quadrantes: Ver as coisas como elas são!
A maneira de ultrapassar esta limitação passa pela pacificação dos sentidos, entre os quais se conta a mente, segundo a sábia classificação da Índia ancestral. A prática da meditação é a via real para esta conquista que vai permitir, como se diz no Budismo Zen, ter uma percepção directa, isto é, não conceptual da realidade. Mas a meditação não é só isto. É também uma simples prática de higiéne mental, fundamental em todo o processo criativo que vamos agora passar a examinar.

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2. A Arte como meio de crescimento espiritual
(...)
As artes sempre foram uma via real para o conhecimento profundo de si próprio, tanto individualmente como da própria natureza humana.
Na nossa cultura, que desde longa data iniciou um processo de alheamento da espiritualidade, as artes têm desempenhado um papel fundamental de articulação entre a espiritualidade e a tendência materialista. Isto só foi possível devido à natureza do processo criativo, embora até hoje pouco se saiba ao certo acerca de tão importante fenómeno. Se assim é, a razão está na nossa ignorância acerca da natureza da mente.
O postulado de base que vamos defender afirma o seguinte:
- A criatividade passa mais por uma abolição do eu do que por uma afirmação da vontade.
Esta característica é responsável pela extrema longevidade das grandes obras de arte, que sempre mantêm a sua frescura e originalidade. Através desse apagamento da vontade própria, que está ao serviço da personalidade individual, houve lugar para a expressão do eu profundo que é universal e eterno. É o reflexo deste eu profundo que se tornou sensível na obra. É a graça, que Mestre Eckhart afirmava nunca deixar de se manifestar desde que lhe fosse dada ocasião. (A dificuldade em fazer este tipo de afirmações está no pressentimento do seu possível desvirtuamento ao querer passar de forma abrupta da formulação geral para a sua aplicação particular.)
Como consequência imediata deste nosso postulado podemos ver que a prática do artista se transforma num exercício de humildade, mesmo se, não tarda, a obra está pronta e pode servir de trampolim para os mais inimagináveis jogos sociais e mundanos, já para não falar dos aspectos económicos envolvidos. Estes jogos, tão característicos do mundo da arte, estão inteiramente dirijidos no sentido de lisonjear o eu individual e psicológico, em completa contradição com a essência do processo criativo. Inversamente, se o processo criativo de um artista for convenientemente dirijido, ele continuará sempre sendo um meio de desenvolvimento espiritual e nunca se converterá num fim em si, e muito menos numa actividade que se reverte nesse proveito próprio por excelência que é a auto-estima.
Esta contradição entre a natureza profunda do processo criativo e todo o mundo da arte em geral, é um problema que cada artista vai ter de resolver à sua maneira (sob pena de ficar esmagado por ele) e para o qual não está, no ocidente, equipado com as ferramentas necessárias para se proteger e enfrentar. Os resultados desta luta são também muito variados mas não vamos aqui entrar em mais pormenores para podermos voltar ao fulcro da questão.
Para melhor compreendermos o significado que atribuimos ao processo da realização da ilusão do eu, vamos ter de examinar o contexto mais geral em que esta atitude se insere. A questão de base que se nos põe será talvez esta:
- Existe uma visão não egocêntrica do mundo?
- Haverá possibilidade de aceder de forma permanente a essa visão?
- Quais as consequências de uma tal revolução?

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3. Desligue o piloto automático e venha à grande festa do vazio nas suas infinitas manifestações
A nossa habitual visão da realidade e da existência caracteriza-se, segundo a sabedoria búdica, por ser fundamentalmente ilusória. Por mais sólido que o eu nos pareça, a verdade é que é menos consistente do que uma bola de sabão. É à volta deste eu ilusório que parece organizar-se um universo que ora nos agride ora nos deleita, quando não nos deixa indiferentes. Se assim não fosse, se o eu tivésse uma existência própria, não haveria incógnita ou então seria irresoluvel e incompreensível.
Através do reconhecimento da ilusão do eu, que também se pode designar por realização da vacuidade, sunyata ou vazio, deixa de existir a base de todas as nossas emoções e ilusões (de facto também já não existia antes: nós é que nos habituámos a perseguir as pegadas duma lebre que só existe na nossa imaginação...)
A ilusão do eu não é mais do que um caso particular do vazio que se diz ser vazio de identidade inerente, vazio de existência independente em si e por si, que é a característica última dos fenómenos e coisas que parecem rodear-nos. Uma vez «libertados», isto é, livres da escravidão que o eu eterna e omnipresentemente impõe, o que resta então de nós? Aqui se situa o grande medo da despersonalização, da diluição e desagregação completa num meio frequentemente ressentido como hostil.
Que fazer então do esforço que constantemente desenvolvemos para manter nossa preciosa identidade e nossa marcada personalidade? Como sobreviver sem poder recorrer constantemente à bitola que nunca deixa de nos aconselhar sobre gostos e preferências, já para não falar em tudo o resto que é objecto da nossa indiferença ou desprezo? É certo que todo o crescimento é doloroso e que, tal como o próprio nascimento, toda revolução ou passagem, tarde ou cedo parece assustadora. O medo, embora nunca se revele claramente nos seus fundamentos, será talvez o maior obstáculo a esta cirurgia espiritual que nos dizem dar acesso a nada menos do que ao paraíso na terra.
Todos estes assuntos são por demais perturbantes para que nos arrisquemos sem garantias de regresso ao supostamente seguro chão do quotidiano. Todas as escolas do budismo começam por nos dar a conhecer a vastidão e variedade das formas assumidas pelo que geralmente se designa por sofrimento e que seria a característica universal desta nossa passagem pela terra. Uma vez reconhecida a doença, avançamos para o estudo da origem de todos esses sintomas, o que nos permitirá qual a possibilidade e o significado da cura prevista. Finalmente é-nos fornecida a receita que consiste num completo sistema ou modo de vida que permitirá aceder a algo que só os obstáculos por nós acumulados impedem de alcançar. Antes de prosseguir devemos chamar a atenção para o facto de que não se recorre nesta terapia a qualquer afirmação ou postulado dogmático, apresentado como passagem obrigatória ao candidato ou adepto: trata-se tão somente de fornecer, à medida das capacidades de cada um, um método constantemente verificado ou actualizado por todos os mestres que nos precederam e trouxeram viva até nós esta tradição, mais do que duplamente milenária.
O trabalho do mestre resume-se a apontar o caminho que o discípulo terá de tomar se quizer verificar por si próprio a realidade do ensinamento, ao mesmo tempo que descobre a sua verdadeira natureza.
Um outro aspecto que vale a pena realçar é o recurso a expressões aparentemente negativas, das quais resulta algo de imensamente positivo. É assim que a perda de algo que se verifica ser uma ilusão corresponde de facto à aquisição de qualidades altamente positivas. O eu, reconhecido como ilusão, é ferido de morte e, para grande surpresa nossa, a hemorragia é libertadora, fonte inesgotável de energia, vitalidade e felicidade indescritíveis.
O nosso fastasma do desemprego, que se exprime pela necessidade de ocupação e pelo horror ao aborrecimento, também não tem razão de ser. Ao gozo e ao sentido lúdico nunca lhes sobra tempo para se aborrecerem. Será então um eterno recreio ou jardim das delícias aquilo por que duramente nos batemos e corajosamente abdicamos dos prazeres bem terrestres? Haverá aqui que fazer um novo parêntesis de modo a deixar pelo menos em mau estado esta noção que temos dos prazeres sensuais: a sua natureza, egocêntrica por excelência, não é menos ilusória do que o resto e os seus efeitos são por demais efémeros; na melhor das hipóteses dar-nos-ão uma momentânea vertigem de algo de que por esse mesmo meio nos afastamos e irremediavelmente perdemos. São assim reconhecidos os nossos queridos prazeres como uma segura fonte de sofrimento e frustração.
Voltando pois à questão inquietante: despojados do eu que parecia ser o nosso mais precioso bem, que nos resta e que fazer? Pois bem, então descobrimo-nos ricos e poderosos com a única condição de não o entendermos de forma egocêntrica.
A verdadeira riqueza, usufruimos dela só no presente, de desapego vestida.
O poder, oferecemo-lo ao primeiro passante e, surpresa das surpresas, a dádiva é fonte inesgotável de riqueza: o verdadeiro poder vai sempre de mão dada com a humildade e serve sobretudo para «ajudar os outros» a alcançar o mesmo estado desprovido de ilusões e temores.
Vítor Pomar
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Partir, partir, evadir-se, atravessar o horizonte, penetrar numa outra vida.
Ora se o espaço pode ser percorrido em todos os sentidos, o tempo, esse, e de sentido único, não se pode inverter o curso desse fluxo sem refluxo.
O tempo não se deixa dissuadir. Não se pode subir o tempo. O seu movimento é irreversível.
Tudo está no tempo, inclusive o movimento.
Cada instante só acontece uma única vez, sucessão de instantes como outros tantos marcos, promessa de renovação infinita.
Nasci para vagabundear, ver e sentir tudo quanto há para ver e sentir no mundo.
A volta ao mundo, círculo eterno, percorrido por um movimento contínuo.
Ora, se o nomadismo é aventura no espaço e ao mesmo tempo exploração do ser, que caminho da vida se há-de traçar?
Viagem circular, peregrinos do devir.
Gira eternamente a roda do ser.
Sempre a mesma velocidade exemplar e sem falha; doce velocidade tão igual que deixa mesmo de ser velocidade, pois não é possível apreciá-la nem tão-pouco medi-la.
Pois o que é a velocidade astronómica dos corpos celestes no vazio do espaço, e o que é mesmo a velocidade da luz, em comparação com essa <

Viajando sem movimento:
Sol, diz-me, de onde me vêm os teus passos?
Com o aquénio, o anofele, com os colmos e as areias, com as coisas mais vãs, a simples coisa, esta simples coisa aqui, a simples coisa de aqui estar, no escoar do dia.
Quem viu o presente viu tudo, o passado imemorial e o futuro até ao infinito.
O mundo passa. Foge, esvai-se. Mas não pára de passar; passa para a eternidade.
O tempo infinito gera dias e noites até ao infinito.
O acontecimento como instante fugitivo no devir. O acontecimento dá-se... e passa, ou por outras palavras, aparece-desaparece, e no mesmo instante.
Nunca nada e, sempre se torna.
O tempo portador do destino, das horas e das estações.
Aqui começa a Primavera, aqui começa e recomeça a eterna juventude.
Espiar, na noite de Verão, a queda de uma estrela cadente.
O eterno está acima do tempo. É a sua negação.
Em verdade vos digo que quem deseja Deus o encontra.
O homem, esse efémero acidente da natureza eterna.
Entrar no mesmo plano com a própria realidade-o mundo já lá para sempre, o divino.
Ele ouviu a voz de Deus na secreta caverna do seu coração e compreendeu que o primeiro passo no caminho da libertação é o dom total de si.
Eu sou, diz o Senhor, o alfa e o omega, o primeiro e o último, o começo e o fim.
Caminho de conhecimento, caminho de vida, caminho de salvação.
Larga todos os teus deveres, busca em mim o único refúgio; não te entristeças, eu libertar-te-ei de todos os teus pecados.
Ultrapassado pela loucura sagrada da evasão, ele partiu sozinho, sem nome, de cajado e tijela na mão, na imensidão da India.
Não me procurarias se não me tivessses encontrado.
Algum dia saberemos onde poisa Deus os pos e onde reside o seu espírito?
A eternidade ou presente de um eterno instante.
Ora como figurar o eterno?
A figuração do eterno, modo supremo da figuração do tempo.
O céu e a terra propõem-nos uma imagem da eternidade, mas eles próprios não estão à medida da eternidade, porque <>, tal como a nossa história humana.
O que é, por exemplo, uma árvore? Um simples tema, que por um momento serve de sujeito às variedades do devir?
Exercitar-se pela meditação a esvaziar o seu excesso de tempo vivido.
Ei-lo que acaba de desembarcar: só, muito branco, muito envergonhado, importunado pelos que vendem, pelos que prometem, pelos que imploram, pelos que o querem levar ao tempo de Buda ou à casa das mulheres. Digam-me: que se ganha com longínquas viagens?
Esta distancia que aguça a vista e a faz ver claro, esta distancia que estabelece elos, essa claridade que tem por nome desprendimento.
Bramanes de brincos e um ponto vermelho entre os olhos, shivaitas de testa coberta de cinzas; vishnuitas marcados com três riscos verticais por cima do nariz; velhos de Kandy de carrapito coroado por um per}te de tartaruga; muçulmanos tonsurados de fez vermelho ou turbante verde afegãos de colete bordado, de babuchas e calça tufada; bonzos budistas de cabeça rapada, de veste cor de açafrão ou enxofre, debaixo de um guarda-chuva preto ou de um guarda-sol amarelo.
O eterno está acima do tempo, desde toda a eternidade.
Quem são estes viajantes que vivem no mundo como estrangeiros e que viajam de terra em terra?
A peregrinação aos lugares santos é o itinerário que leva ao centro do mundo, onde se dá a comunicação com o céu.

Porquê empreender tal viagem?
O viajante desloca-se de lugar em lugar, a fim de chegar ao não-lugar.
Traçar o caminho que será definido pelo próprio caminhar.
Toda a carne é comparável à erva e todo o seu brilho como a flor do campo. A erva seca, a flor murcha; mas a palavra do nosso Deus subsiste por toda a eternidade.
Ah!, seguir, titudeando, as pisadas dos Deuses.
O budismo? Que importa isso? O budismo é tocar com o pé as bases rochosas do ser. Nudez, despojamento. Mergulhar muito além das nossas raízes e ver no mais fundo da nossa natureza.
Destruir o eu outro sentido não tem que o de nos conhecermos.
Conhecer o eu, para nos libertarmos, é substituir o desejo de ter pelo desejo de ser.
O conhecimento da verdade, único objectivo do peregrino da via.
Ele deixa o mundo pelo mundo, deixa a concorrência, a glória, a fortuna, o domínio ou a servidão pela realidade. Crê este mundo aqui divino. Só divino. Objectivo.
Abandona as coisas que atrás de si ocultam as coisas do mundo.
Deixa o valor e a escala, deixa a escala dos valores, forte e fraco, poderoso e miserável, deixa a comparação. Donde provém todo o mal do mundo.
Eternidade estável, parada, vertical, eterna. A santidade é o desprendimento.
Haveria que ajoelhar. O meu corpo procura uma postura. Criar o vazio. Interromper o tempo.
Entre a eternidade e o tempo não há comum medida.
Tudo quanto Deus criou, no mesmo instante Ele o manifesta.
A eternidade fora do tempo coincide com o presente real ou o instante, de que não se pode ter a experiência no tempo. Instantes sem duração, cuja soma é impensável. Lá, tudo mais não é do que um dia, sem que haja sucessão; nenhum ontem, nenhum amanhã.
O dia eterno que jamais se levanta ou declina.
A iluminação, a compreensão, realiza o milagre da saída do tempo.
No relâmpago, a verdade.
Aquele para quem o tempo já não corre, vive num eterno presente.
Trabalhando sobre a respiração, o yogin trabalha directamente sobre o tempo vivido cujos ritmos modifica e controla de acordo com o ritmo do grande tempo cósmico. Mas o seu fim último é a abolição do tempo, a paragem do fluxo temporal, o salto paradoxal fora do tempo, a iluminação instantânea.
Tornamo-nos um simples elo da eterna cadeia dos peregrinos que desde tempos imemoriais caminham pelas veredas solitárias.
A viagem do espirito não é condicionada pelo espaço nem pelo tempo. O conhecimento da verdade, único objectivo do peregrino da via.
Uma vida a caminhar, longas caminhadas rumo às montanhas
Solitário, percorro milhares de quilómetros e pergunto qual o mou caminho às nuvens brancas.
A estrada continua...
Os dias passam.
A estrada é perigosa; é uma sucessão de passagens, de veredas escarpadas entre maciços vertiginosos.
Depois de vez em quando, aparece a planície, alargam-se os vales.
Não tarda que a pista se insinue num desfiladeiro e eis a floresta sombria, a imensa floresta que se aproxima.
Eles atravessam a floresta sombria e seguem durante muito tempo por um caminho levemente delineado.
A montanha é enorme e deserta. Levam dias inteiros sem encontrar ninguém.
Caminham devagar, num passo regular, e harmonizam perfeitamente a respiração com o andar.
A errância, a errância errância salva-nos e guia os nossos passos.
A errância é claridade.
e o resto é apenas máscara.

Alto no espaço, os picos elevam-se no céu negro e as estrelas brilham
em pleno dia, pois a altitude é incalculável.
Montanhas abrem o horizonte, montanhas fecham ao longe, caos formidável dos tempos primitivos.
A estrada serpenteia em volta do lago, escalando as rochas, insinuando-se entre os glaciares, atravessando os rios.
Azuis são os pinhais suspensos em grandes manchas à beira dos abismos; azul, o horizonte incerto que dança sob o sol e a neve...
Extraviados incertos que precedeis o caminho que precedeis o apelo é em vosso nome que a alvorada do céu avança.
A vereda é áspera, estreita, irregular e perigosa; vêem-se obrigados a passar pontes frágeis e oscilantes e a atravessar em vários sitios largas placas de neve.
Onde fica a distancia, onde se anula o medo?
Os peregrinos avançam rapidamente e as dificuldades da ascensão não os atardam.
Para subir, têm de se agarrar à erva dura que cresce pelas encostas abruptas.
Mais alto, cada vez mais alto, trepam os peregrinos infatigáveis. Elevar-se é o sonho do homem.
Rosto errante, rezo pelo meu pó e canto a minha alma exilada.
A caravana prossegue na subida, atravessando, camada após camada, as nuvens.
A ascenção não tem fim, nem sequer o céu parece pôr-lhe termo; cada etapa revela uma paisagem diferente, um outro clima, uma nova vegetação.
A vereda penetra na região de paisagens fantásticas que precede os desfiladeiros altos.
No cimo do desfiladeiro, as nuvens que se elevam ao longo da montanha em massas sombrias, enormes e ameaçadoras, dissipam-se como por encanto no ar leve; depois, as portas do céu abram-se para um mundo luminoso, colorido, sob um firmamento de um azul profundo.
Não Ihes resta mais então do que galgarem os degraus de pedra que “sobem mais alto, sempre mais alto”, até ao cume da glória.
O êxodo chegou ao fim e a estrada é uma rocha-amorosa.
Árvore; Como um ponto fixo no tempo, como um eixo tranquilo do mundo, um espinho cravado na história, uma invariante de serenidade.
Viajai pelos quatro cantos da Terra, não encontrareis ninguém em parte alguma. Tudo quanto existe está ali.
O instante, o “não-tempo” é simbolizado pelo “não-espaço” ou pelo seu principio: o ponto.
Procurar o ponto imóvel e o infinito, no centro da mobilidade sem fim.
O ponto axial ou o centro da roda, o ser exemplar.
O ponto no qual todos os tempos estão presentes é igualmente o centro imóvel de toda a existência, do circulo que a alma percorreu, e quando a alma se arredondou e encontrou o circulo sem fim, então precipita-se para 0 centro.
Quando o centro de um ser individual coincide com o centro da roda, fica liberto: a extensão da roda já não o arrasta no seu movimento espacial, a sua rotação torna-se agora para ele um espectáculo, visto na sua simultaneidade; “Testemunha do que o rodeia, ele domina todas as coisas.”
Aqui sobe a árvore dos mil ramos, amadurecendo em todos os ramos todos os frutos ao mesmo tempo.
O movimento do êxtase acompanha, como é natural, o processo habitual das revelações. É quase sempre pelo esgotamento do esforço, pela angústia, que ele se anuncia. O desespero que quebra o antigo eu é a porta que se abre para o eu novo.
Vitor Pomar
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