segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Vida e Obra
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"Aquilino"

Biografia

Nasceu em Lisboa em 1926 e faleceu na Amadora em 1999. Pintor, Escultor e Ceramista. Realizou diversas exposições em Portugal e no estrangeiro. Está representado em diversas colecções: Palácio da Justiça de Lisboa, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Museus Nacionais, Câmaras Munici-pais, Centro de Formação Profissional de Pegões, Governo Regional dos Açores, etc. Executou diversos frescos em 12 Capelas, no Alentejo e Ribatejo.


Prémios
3° Prémio da Exposição “Um Americano em Paris” - M.G.M. em 1952; Prémio Nacional Amadeo de Souza Cardoso em 1959; 3º Prémio do Sindicato dos Críticos de Arte na I Bienal de Paris em 1959; 1º Prémio do II Salão de Arte Moderna da Junta de Turismo da Costa do Sol em 1964; 2º Prémio do Concurso de Pintura da BP em 1966; Prémio Artes Plásticas das Revistas “Eles e Elas” e “Nova Gente” em 1983 e 1984; Prémio MAC´Carreira em 1997 - Movimento Arte Contemporânea.


Colaboração de Ilustração
Tomou parte nos Encontros Inter-nacionais de Arte Caldas da Rainha e Vila Nova de Cerveira, organizados pelo Grupo Alvarez. Com Carlos Avilez e Francisco Relógio, colaborou, como director plástico em várias cenografias levadas à cena no Teatro Experimental de Cascais e do Porto.
Foi director gráfico da revista de arte e letras “Contravento”. Executou painéis-mosaico para a estação da CP da Amadora e para o Metropolitano de Lisboa.
Ilustrou os livros “Instinto Supremo” de Ferreira de Castro, “As Alegres Noites de Um Boticário” de Miguel Barbosa e “Rencontre avec culture Portugaise” (Nov./91 - Paris).


Citado em:
 Pintura e Pintores etc. - Fernando Guedes
 Dicionário da Pintura Universal - Estúdios Cor
 Abstract Painting - Harryn, Abrarns, Ins., Publishers, New York
 Art - Larousse
 Koogan Larousse, Selecções
 Dicionário dos Pintores e Escultores Portugueses - Fernando Pamplona
 Arte Moderna e Contemporânea Portuguesa - 1900 a 1979 - Dictionaire Grolier
 Portuguese 20th Century Artist - Londres
 História de Arte Contemporânea por José-Augusto França


EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS E COLECTIVAS
1952 – Galeria do S.N.I. – Exposição de Pintura “Um Americano em Paris” – Lisboa
1954 – Galeria de Março – I Salão de Arte Abstracta – Lisboa
1956 – Galeria Pórtico – 17 Artistas Contemporâneos – Lisboa
1957 – Convento dos Capuchos – II Exposição de Artes Plásticas – Almada
1957 – Sociedade Nacional de Belas Artes – I Salão de Artes Plásticas – Lisboa
1958 – Faculdade de Ciências – Retrospectiva da Pintura não Figurativa em Portugal – Lisboa
1958 – Sociedade Nacional de Belas Artes – I Salão de Arte Moderna – Lisboa
1958 – Junta de Turismo da Costa do Sol – III Salão de Primavera de Pintura e Escultura – Estoril.
1959 – I Bienal de Paris – França
1959 – Museu de Arte Moderna – V Bienal
de S. Paulo – Brasil
1959 – Galeria do S.N.I. – II Salão
dos Novíssimos – Lisboa
1959 – Galerie Charpentier – École de Paris – Paris – França
1959 – Museu de S. Francisco da Califórnia – Exposição de Arte Moderna – S.  Francisco da Califórnia – U.S.A.
1959 – Bienal Internacional Bianco e Nero – Lugano – Itália
1960 – Museu Municipal de Amarante – Amarante
1961 – Museu de Arte Moderna – VI Bienal de S. Paulo – Brasil
1962 – Exposição Itinerante da Colecção da Fundação Calouste Gulbenkian – Açores
1962 – Galeria Alvarez – Exposição Itinerante de Arte Moderna – Porto
1963 – Biblioteca-Museu de Amarante – Artur Bual e Fausto Boavida – Amarante
1963 – Sociedade Nacional de Belas Artes – 59º Salão da Primavera – Pintura – Aguarela – Desenho – Gravura e Escultura – Lisboa
1964 – Junta de Turismo da Costa do Sol – II Salão de Arte Moderna – Estoril
1964 – Sociedade Nacional de Belas Artes – Lisboa
1965 – Galeria do S.N.I. – Exposição dos Artistas Premiados nos Salões dos Novíssimos – Lisboa
1965 – Museu de Arte Moderna – VIII Bienal de S. Paulo – Brasil
1966 – I Concurso Nacional de Pintura da BP – Lisboa
1966 – Galeria de Arte do Diário de Notícias – Lisboa
1966 – Galeria de Arte de Schiedam – Roterdão – Holanda
1967 – Palácio Bettencourt – 10 Trabalhos das fases Abstracta – Gestualista e Neo-Figurativa – Terceira – Açores
1967 – Fundação Calouste Gulbenkian – 60 Anos de Arte Portuguesa em Bruxelas – Bélgica
1968 – 5 Pintores Portugueses na Sala de Santa Catalina del Ateneo de Madrid – Madrid – Espanha
1969 – Museu de Arte Moderna – 11 Artistas Portugueses – Rio de Janeiro – Brasil
1969 – Palácio Foz – 5 Artistas Portugueses – Lisboa
1969 – II Bienal Internacional del Deporte en las Bellas Artes – Madrid – Espanha
1969 – Museu de Arte Moderna de Belo Horizonte – I Exposição Circulante – Brasil
1971 – Galeria de Arte da Secretaria de Turismo e Fomento do Município de S. Paulo – São Paulo – Brasil
1974 – Galeria S. Francisco – Diálogo 74 – Exposição colectiva de pintura – Lisboa
1975 – Palácio Foz – Exposição de 100 obras do Património do M.C.S. – Lisboa
1977 – IV Encontros Internacionais de Arte em Portugal – Caldas da Rainha
1978 – I Bienal de Arte de Vila Nova
de Cerveira – Vila Nova de Cerveira
1980 – II Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira – Vila Nova de Cerveira
1981 – Galeria Tempo – Diálogo Corporal – Grupo Alvarez – Lisboa
1981 – Galeria Neupergana – 15 Pintores Portugueses – Grupo Alvarez – Torres Novas
1982 – Museu Nacional de Arte Moderna – S.N.B.A. – I Exposição Nacional de Arte Moderna – Porto
1983 – Galeria S. Francisco – Exposição de Originais Portugueses – Lisboa
1983 – Museu de Setúbal – Da Arte à Escola/Da Escola à Arte – Setúbal
1983 – Museu Municipal Armindo Teixeira Lopes – Mirandela
1984 – Galerie de la Maison Portugaise – Artur Bual e Miguel Barbosa – Marseille – França
1985 – Galeria Almada Negreiros – M. da Cultura – Homenagem dos Artistas Portugueses a Almada Negreiros – Lisboa
1988 – Galeria de Arte do Casino Estoril – Fernando Namora 50 anos de vida literária – Estoril
1988 – Biblioteca Nacional de Praga – Exposição de Pintura Portuguesa – Praga – Checoslováquia
1990 – Exposição no Ayuntamento de Cordoba – Espanha
1991 – Exposição na Galeria Magellan – Paris – França
1991 – Galeria de Arte do Casino Estoril – XII Salão de Outono – Estoril
1992 – Exposição no Leal Senado em Macau integrado nas comemorações do dia de Portugal e das Comunidades – Macau
1992 – VII - Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira – Vila Nova de Cerveira
1993 – Galeria S. Francisco – Lisboa
1993 – II Simpósio Internacional de Escultura em Ferro na Amadora – Amadora
1994 – Fábrica da Cultura – Retrospectiva antológica da obra de Artur Bual – Amadora
1995 – Museu Municipal Dr. Santos Rocha – Figueira da Foz
1996 – Cordoaria Nacional – I Salão de Prestígio – THE BEST – Lisboa
1996 – Exposisition “ Le rêve et L’exotisme – Culture Brésiliens et Portugais – Avignon – França
1997 – Galeria MAC – Arte Gráfica de Bual – Lisboa
1999 – Galeria Municipal Artur Bual – “Sopros de Ser” – Amadora

 

 

 


 

 

 

BUAL, HISTÓRICAMENTE FALANDO

1.Na sua tese L'Art dans la Société Portugaise au XX ème Siecle, apresentada há cerca de trinta anos a secção de Ciências Sociais da Ecole des Hautes Études, de Paris, José-Augusto França citava nove pintores representativos das várias tendências do abstraccionismo na pintura portuguesa, entre os quais como iniciador do gestualismo, Artur Bual. Os outros eram Vespeira, Fernando Azevedo, Fernando Lanhas. Nadir Afonso, Joaquim Rodrigo, Menez, João Vieira e D'Assumpção, citados por esta ordem Hoje, à distancia de três décadas, é provável que as  nove tendências  representadas por estes pintores pudessem passar, por exemplo a três. e que alguns deles (dos pintores) pudessem ser substituídos por outros, ou que a lista pudesse " ser aumentada ou reduzida. Em arte, o tempo é como o Sol no seu giro diurno, projecta a sua luz sobre as coisas iluminando-as sucessivamente de ângulos diferentes, fazendo sobressair perfis antes obscuros e ensombrando outros alterando o jogo de claro-escuro do fundo onde as coisas (que estão sempre no mesmo lugar) parecem mover-se. mover-se. 
Em qualquer caso, porém, uma lista de pintores historicamente representativos das várias tendências da pintura abstracta em  Portugal seria sempre incompleta sem o nome de Bual. Isto independentemente do juízo de valor que se queira fazer sobre a sua dos maiores pintores portugueses desta segunda metade do século). A razão é que a pintura de Bual é a primeira, e ainda a mais importante, referência do gestualismo na pintura portuguesa.

2. Com efeito, o gestualismo principiou na pintura portuguesa em 1958 com Artur Bual e foi na obra deste pintor que atingiu. e mantém ainda, a sua mais alta expressão estética.
Bual aparece no meio artístico português nos anos 50. Um tempo de alguns equívocos mas também de intensa ebulição criativa, em que a arte abstracta, até ali dispersa, passa a ser vista como uma vanguarda entre. ou contra, 0 Neo-Realismo e 0 Surrealismo, que eram, desde o final da Guerra (a 11 Mundial) os movimentos modernos que agitavam mais alto as bandeiras. O seu nome (Artur Bual) figura entre os dos "nossos artistas abstractos" que a Galeria de Março, (1952-54) reuniu "em parada completa pela primeira vez" em Abril de 1954 faz agora justamente 40 anos) num I Salão de Arte Abstracta organizado pelo historiador e critico de arte referido no começo destas linhas, mas a sua pintura não tinha ainda encontrado nessa altura, um rumo próprio: o abstraccionismo, conquanto provável no seu horizonte, não constituía senão uma tendência. Bual não tinha qualquer filiação estética especialmente nominável e quanto à sua posição em face da questão do momento - que era ser figurativo - ou não figurativo. não rejeitava tanto como não se submetia à representação do real. O que, na verdade, a sua pintura tendia a representar (isso o ia levar, justamente, ao gestualismo) era o próprio acto de pintar.


 Entretanto. quadros seus iam sendo vistos nas principais "colectivas" da época (as Gerais de Artes Plásticas da S.N.B.A., varias exposições da Galeria Pórtico a I Exposição de Artes Plásticas da Fundação C. Gulbenkian. etc.), até que em 1958 é exibida, no I Salão de Arte Moderna da S.N.B.A., a sua primeira pintura gestual.
Essa pintura evidenciou-se entre as melhores ali expostas e, de certa forma em oposição a elas pelo seu ineditismo no panorama artístico português, onde "os grupos adstritos aos jovens pintores" ainda procuravam comprovar o abstraccionismo pela "razão primogénita da espécie", isto é. folheando (estou a citar Cesariny) albuns de Klee Kandinsky, Malevitch e, "em casos mais desesperados", de Mondrian, todos já iluminados pela luz perpétua da história.
 A expressão em oposição a, que usei acima referida a primeira pintura gestual de Artur Bual, vem numa critica de J.A. França publicada na altura, onde aquele critico salientava a coragem e navegar no mar alto" que Bual tinha atingido com a sua nova maneira e apontava o que a distinguia no conjunto do Salão: "um expressionismo cuja potência cenográfica se encontra(va) com a de uma corrente não figurativa de génese americana e pouca compreensão europeia".
Essa corrente americana era o expressionismo abstracto que tinha, por sua vez, génese europeia (Hartung, Wols, Soulages, por exemplo), mas havia adquirido grande relevo na América com Tobey, Kline, Pollock. entre outros Bual. Se não fosse português, ou se o Chiado fosse um bairro de Paris ou de Nova lorque, seria citado nas Historias de Arte junto destes artistas e apesar de muito mais novo, não em ultimo lugar.
  

Eduíno de Jesus

* * *

"Aquilino"

* * *

Artur Bual

 Um Prémio “ Sousa Cardoso “ – por Sellés Paes

(...) 

“Artur Bual, um joviníssimo pintor, integra rigorosamente no tempo da nossa actualidade, emparceira em ímpar posição – conhecida a situação da arte de Sousa Cardoso – com tantos quantos em anos anteriores receberam tal galardão.“

(...)

“Artur Bual, um dos mais sérios e raros casos de pintura portuguesa premiada: sem sair de Portugal, sem se preocupar com exibicionismos, ou divagações publicitárias, entendeu por sentimento, sensibilidade, e intuição, a problemática de uma pintura não figurativa, onde o quadro se disciplina a uma ideia interior que rigorosamente está em harmonia com o nome dado pelo pintor.”
 

(...)

 “Bual não exprime coisas, mas sentimentos, parindo de estados de alma perfeitamente integrados e coerentes com o tempo presente de luta e sofrimento mas, em Bual, nunca de dúvida ou incerteza.”

 (...)

 “Nunca prémio nenhum foi dado a pintor algum tão contemporâneo como neste caso, e que tenha chegado a tal modernidade por uma evolução lenta, laboriosa, mas tenaz e persistente, no silêncio da sua oficina na busca de uma expressão que rigorosamente traduza o sentimento do pintor.”

 in “ Revista Mundo “

23.7.59

Artur Bual:

 Um dos nomes mais representativos da nossa Pintura de hoje.

 “...a pintura de Bual não se pode confundir com qualquer outra e o seu abstractismo transcende os limites de uma vulgar “ construção “, não é de modo algum a contrafacção, a arte sofisticada de alguns pintores hodiernos que se pretendem seus pares...”

 in “ Diário Ilustrado “

25.1.62

 Tapiés e Bual – por Quirino Teixeira

 (...) “Presentemente, Bual é considerado como um dos primeiros pintores portugueses. As suas obras – toda a sua obra – conseguiram impor-se e destacar-se no nosso meio, e é na minha opinião que Artur Bual ficará, para a história das artes plásticas, como o primeiro informalista português; como o responsável pelo súbito passo dado entre nós, Portugueses, no campo das Artes Plásticas; como o melhor pintor português da presente época.”

 A Minha Pintura está a acontecer comigo

(...) “Penso que a minha pintura, está acontecendo comigo, que me vou transportando nela com insatisfação do humano em busca do transcendente. Acompanho de mãos crispadas na amurada incerta das minhas incertezas, trincando palavras sem forma concreta que segredam o grito, para além da policromia clássica e para aquém da minha causa, de captação do absoluto. Nada mais do que penso é diferente do que todos pensam: os que sentem reflectir-se os seus arrojos íntimos e mentais nos seus quadros, e os que olham para ele sem nada verem.” (...)

in “Cartaz”

19.05.64

 

BUAL por Morris


Desenho 

A última exposição de Artur Bual – por José de Melo.

“... para nos referirmos à última exposição de Artur Bual realizada na S.N.B.A. A exposição dignifica a S.N.B.A: e este membro do Conselho Técnico, artista largamente conhecido e cujos os trabalhos transcenderam, por mérito próprio, as nossas fronteiras: Artur Bual já não é apenas uma vontade de acertar e de amor ao trabalho, mas uma certeza. E é pois à medida de uma certeza que merece e deve ser julgada. “


in “ A Voz Académica “


15.6.64


Perspectivas: Artur Bual reaparece com duas obras primas na S. N. B. A. - por J. Cunha
 

(...) “Mais do que um pintor ou uma pintura, o que esteve em causa na exposição da citada galeria foi a situação das artes plásticas em Portugal e o rumo das mesmas. Cansados de um figurativo paisagístico e humano que se apresentava ultra-académico, os nossos pintores enveredaram, na corrente do tempo, pela pintura abstracta, (que a custo conseguiu impor-se perante um público). Mas esta pintura abstracta, a pouco e pouco, foi-se tornando académica. Académicos se foram tornando os nossos pintores abstractos. Ora quando um pintor abstracto como Bual, (um dos valores mais representativos da pintura portuguesa), se nos apresenta como se apresentou agora, com quadros figurativos, e, precisando, com dois retratos, isso quer dizer que algo de novo se está a passar no capítulo das artes plásticas portuguesas.” (...)


1964

 

 

 

 

 


O Cinema é a linguagem do futuro – por Nelson Di Maggio


(...) “Artur Bual é um dos nossos artistas que mais trabalha, e a caso um dos poucos que pode ser considerado profissional. No seu atelier – uma cave, na Amadora, onde reside, mas noutro prédio, com a mulher e a filha – estão cuidadosamente arrumadas numerosas telas recentes, obras de encomenda e de criação.


O seu drama é universal, comum a muitos artistas. Mas este homem, pequeno e franzino, que fala sem escolher as palavras nem embelezar as suas ideias, com uma espontaneidade invulgar, tem uma capacidade de trabalho inesgotável e uma facilidade de produção espantosa. (...)“ 

in Revista “ Flama “


1967
 

 

 

Artur Bual

Pintor

1926 – 1999

 

 

 

 

 

Artur Mendes de Sousa Bual nasceu em Lisboa, a 16 de Agosto de 1926. Foi

um dos maiores pintores da segunda metade do século XX português, pioneiro

da pintura gestual no nosso país, escultor e ceramista.

 

Filho de Júlia Mendes Bual e de João Abelard Sousa Bual, passou a infância

em Torres Novas, num ambiente de marcante ruralidade, de ligação profunda à

Natureza, que recordou anos mais tarde da seguinte forma: “As imagens da

minha infância, a natureza que me cercava, as flores que colhi e não cheirei

marcaram-me como homem e – eu sei-o – como pintor. Foi por um caminho

sinuoso que cheguei ao encontro comigo mesmo”.

 

Artur Bual iniciou os estudos em Santarém. A família mudou-se entretanto para

Lisboa, acompanhando o pai, juiz, aqui colocado numa comarca.

 

Bual começou a pintar aos 14 anos. Cedendo à vocação artística, ingressou no

curso de pintura da Escola de Arte António Arroio. Aí marcou os seus

condiscípulos, os quais nunca perderam o laço que se gerou nesses anos de

estudo, continuando a reunir ao longo dos anos um grupo de amigos coeso a

que chamavam tertúlia António Arroio.

 

Artur Mendes de Sousa Bual foi casado com Guilhermina Serra Pereira Bual,

sua companheira segura de todas as horas, com quem teve uma filha, Maria

João Pereira de Sousa Bual Valente Salvado.

 

Artur Bual trabalhou mais de 30 anos na Junta de Colonização Interna, de onde

foi requisitado pelo S.N.I. (Serviço Nacional de Informação), no âmbito do qual

organizou exposições, elaborou desenhos e catálogos, e contribuiu para a

aceitação de exposições de vários pintores, entre os quais Francisco Relógio e

Lima de Freitas1. Já nessa altura o jovem artista frequentava a tertúlia

surrealista, denominada Grupo de Gelo. 2,

 

Possuidor de um carácter forte, Bual era considerado franco e leal pelos

amigos. Apreciava a sua companhia e cultivava a arte da conversa, no seu jeito

agridoce de falar, que considerava como parte da sua pintura.

 

A sua vocação dominaria a sua vida, tornando-se indissociável da sua atitude

perante esta, algo que o mantinha permanentemente inquieto e vivo, abraçando a tela com sinceridade e devoção. Bual afirmou que “Gostaria que

se lembrassem de mim como um homem que pintou, diariamente, as suas

preocupações, os seus sonhos e, acima de tudo, o amor”.

 

 

 

Ainda nos anos 50, Artur Bual fixou-se na Amadora com a sua família. É aí que

instala o seu estúdio, numa cave da Rua de Santo António. Adoptado pela

cidade, que dele se orgulhava e que o acarinhava, Bual mantinha abertas as

portas do seu estúdio, onde, em pleno processo criativo, gostava de se rodear

de amigos e conhecidos, por vezes de curiosos, os quais aí paravam e

permaneciam horas em amena cavaqueira, focados no pintor arrebatado que à

sua frente lhes abria a janela do seu acto de criação. Bual criava arte

incessantemente, instintivamente, como quem a respira, numa experiência que

alguns consideravam mística.

 

Após o 25 de Abril de 1974, Artur Bual levou esta experiência um passo

adiante, pintando ao vivo telas de grandes dimensões, em vários locais

públicos, caso dos Encontros Internacionais de Arte, das Bienais de Vila Nova

de Cerveira e das Caldas da Rainha, e na 1ª Festa do Avante, entre outros.

 

Artur Bual foi um dos primeiros pintores gestuais abstractos portugueses e fez

parte do grupo de pintores que participaram no “I Salão de Arte Abstracta” em

19543, na Galeria Março em Lisboa, organizado pelo historiador José Augusto

França.

 

À época, Bual ainda não decidira conscientemente o rumo a dar à sua pintura,

a qual foi durante muito tempo considerada impossível de catalogar, embora já

nela fosse marcante o gesto de pintar, o próprio acto da criação. O pintor

atingiu a maturidade do seu estilo após uma longa e persistente prática.

Nos finais dos anos 50, Artur Bual passou três meses em Paris beneficiando de

uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Na então capital cultural

europeia, o pintor prosseguiu a sua formação e aprendizagem artística,

configurando então as suas opções estéticas, muito sob a influência da obra

dos expressionistas alemães, com a qual contactou nos museus de Paris,

possibilidade que lhe era negada em Portugal, país então fechado às

influências do exterior.

 

Ao longo de cinquenta anos de pintura, o seu gestualismo4 de vocação

expressionista sempre se debateu entre a abstracção e a figuração. A sua

pincelada forte criou cargas emotivas, dramáticas, de forte conteúdo humano.

Duas séries de telas idealizadas pelo pintor alcançaram uma assinalável

popularidade, levando-o a confessar que lhe permitiram a possibilidade

financeira de se dedicar a outras obras menos consensuais. Foram elas a das

“meninas”, de forte carga erótica, representativas da paixão que tinha pelo

feminino, e a de “cavalos”, onde expressa a admiração pela sua nobreza e

força. Sobre a primeira afirmou Bual: “Também está no corpo das minhas

meninas (o dramatismo na minha pintura) … Ninguém é como eu as pinto.

Fisicamente. Uma mulher é algo dramático. Mesmo no seu corpo belo,

redondo, macio, rugoso, existe dramatismo”.

 

Nos seus “retratos” de conhecidos escritores portugueses o contraste claro escuro, aliado ao seu gestualismo impulsivo, as máscaras dilaceradas pela dor, brutais, tragicamente humanas, cativa e emociona o espectador pela força que

transmite aos modelos. Contestados à época, os “retratos” ficaram como um

marco na sua carreira.

Artur Bual também pintou obras de temática religiosa. Executou diversos

frescos em 12 capelas no Alentejo e Ribatejo, entre as quais a da Herdade da

Abóbada, em Vila Nova de São Bento, e a da Igreja das Faias, em Sto. Isidro

de Pegões. Mas ficaram principalmente famosos os seus “Cristos”, plenos de

intensidade emocional no seu despojamento e sofrimento, acerca dos quais

afirmou: “Cristos ou Crucificações são símbolos de humanidade e despojamento, de torturas e amor; (…) Estou sempre predisposto a pintá-lo

(Cristo). Quem sabe se não o pinto como quem faz um auto-retrato?”.

Artur Bual foi distinguido com o Prémio Nacional Amadeo de Souza Cardoso5

em 1959, um dos marcos na sua carreira. Sobre esta distinção escreveu Selles

Paés: “Artur Bual, um dos mais sérios e raros casos de pintura portuguesa

premiada: sem sair de Portugal, sem se preocupar com exibicionismos, ou

divagações publicitárias, entendeu por sentimento, sensibilidade, e intuição, a

problemática de uma pintura não figurativa, onde o quadro se disciplina a uma

ideia interior que rigorosamente está em harmonia com o nome dado pelo

pintor. (…) Nunca prémio nenhum foi dado a pintor algum tão contemporâneo

como neste caso, e que tenha chegado a tal modernidade por uma evolução

lenta, laboriosa, mas tenaz e persistente, no silêncio da sua oficina na busca de

uma expressão que rigorosamente traduza o sentimento do pintor”.

Bual foi um pintor não só reconhecido pela elite cultural mas também pelo

grande público. A sua pintura, carregada de espiritualidade e sensações,

verdadeira, autêntica, transportou para o povo a profundidade dramática do ser

português, o que levou Quirino Teixeira a escrever nas páginas do Diário de

Notícias, em 1962: “Existirão, porventura, cores idênticas no fado e na pintura

de Bual”. O próprio pintor reconheceu-o, sublinhando não só a faceta do ser

português no dramatismo da sua pintura, mas também o forte iberismo, que lhe

advinha da força da pintura espanhola, a qual reconhecia e o inspirava.

 

Possuidor de personalidade frenética, fervilhante, foram imensos os projectos

que o artista plástico abraçou ao longo da sua carreira, entre os quais se

podem destacar os seguintes: na companhia de Carlos Avilez e Francisco

Relógio, Artur Bual colaborou como director plástico em várias cenografias

levadas à cena no Teatro Experimental de Cascais, e no do Porto.

 

Foi director gráfico da revista de arte e letras “Contravento” e ilustrou os livros

“Instinto Supremo” de Ferreira de Castro, “As Alegres Noites de Um Boticário”

de Miguel Barbosa, e “Rencontre avec la culture Portugaise” (Paris, 1991).

 

Como ceramista, Artur Bual executou painéis-mosaico para a estação da CP

da Amadora e para o Metropolitano de Lisboa, a instalar numa estação a

designar. Como ilustrador colaborou com os correios portugueses em 1962, na

edição de dois selos de correio de homenagem ao Sport Lisboa e Benfica, pela

vitória na taça dos Campeões Europeus, e em 1992, com os correios

angolanos na edição de três selos de correio de homenagem à visita a Angola

de Sua Santidade, o Papa João Paulo II6. Bual elaborou ainda o rótulo das

garrafas do espumante Raposeira, pela comemoração do centenário.

 

Foram inúmeras as exposições individuais e colectivas em que o artista

participou. A primeira teve lugar na Galeria do S.N.I., Lisboa, no âmbito da

mostra “Um Americano em Paris”, 1952. Marcante foi a sua participação no “I

Salão de Arte Abstracta”, 1954, na Galeria de Março, Lisboa. Expôs por várias

vezes na Sociedade Nacional de Belas Artes e no Palácio Foz, em Lisboa.

 

Colaborou com o Museu Nacional de Arte Moderna, Porto, Museu de Setúbal,

Museu Municipal Armindo Teixeira Lopes, Mirandela, e Museu Municipal Dr.

Santos Rocha, Figueira da Foz. Em Amarante expôs no Museu Municipal e na

Biblioteca-Museu.

 

No ano de 1962 participou nas exposições itinerantes da Colecção da

Fundação Calouste Gulbenkian7 aos Açores, e da Galeria Alvarez, Porto.

Artur Bual participou no “I Concurso Nacional de Pintura da BP”, em Lisboa,

1966, nas “I”, “II”, e “VII” Bienais de Arte de Vila Nova de Cerveira, entre 1978 e

1992, e na Cordoaria Nacional, Lisboa, no “I Salão de Prestígio – THE BEST”,

1996.

 

O pintor colaborou com várias galerias, entre elas a Galeria Pórtico, a Galeria

de Arte do Diário de Notícias, a Galeria Almada Negreiros, a Galeria MAC, a

Galeria São Francisco e a Galeria Tempo, em Lisboa, a Galeria Neupergana,

em Torres Novas, e a Galeria de Arte do Casino Estoril.

 

Na sua cidade de adopção, a Amadora, Artur Bual integrou o “II Simpósio

Internacional de Escultura em Ferro na Amadora”, 1993, e expôs na Fábrica da

Cultura, com a “Retrospectiva antológica da obra de Artur Bual”, 1994. Desde 9 de Abril de 1999 que a Galeria Municipal de Amadora ostenta o nome Artur Bual, homenagem que coincidiu com a inauguração no espaço de uma

exposição de cerâmica do Mestre Manuel Cargaleiro. Ainda no mesmo ano, em

colaboração com a Câmara Municipal da Amadora, teve lugar a exposição

“Sopros de Ser”, 43 telas repartidas por este espaço e pela Galeria dos

Recreios da Amadora.

 

Por várias vezes a sua pintura chegou à vizinha Espanha. Destas destacamos

a exposição “5 Pintores Portugueses”, que teve lugar na Sala de Santa

Catalina del Ateneo de Madrid, 1968. No ano seguinte, participou, também em

Madrid, na “II Bienal Internacional del Deporte”, e em 1990, numa exposição

patrocinada pelo Ayuntamento de Córdoba.

 

Em França o pintor participou na “I Bienal de Paris”, 1959, cidade onde expôs

por várias vezes. Marselha e Avignon foram outras cidades que o acolheram.

No Brasil a sua obra pôde ser apreciada nas “V”, “VI” e “VIII” Bienais de São

Paulo, as quais aí decorreram no Museu de Arte Moderna. Expôs ainda no Rio

de Janeiro e em Belo Horizonte.

 

Em 1988, a sua pintura chegou à então Checoslováquia, onde participou na

“Exposição de Pintura Portuguesa” que teve lugar na Biblioteca Nacional de

Praga. Em 1992 chegou a vez do Leal Senado de Macau acolher as suas telas,

integradas na exposição comemorativa do Dia de Portugal e das Comunidades.

Expôs também nos Estados Unidos, em São Francisco, em Roterdão, Holanda,

em Lugano, Itália, integrado na “Bienal Internacional Bianco e Nero”, e na

Fundação Calouste Gulbenkian em Bruxelas.

 

Artur Bual tem a sua obra representada em diversas colecções, entre as quais

a do Museu Nacional de Arte Contemporânea, a do Palácio da Justiça de

Lisboa, a do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, a do

Governo Regional dos Açores e Câmaras Municipais, entre as quais a da

Amadora.

 

Foram vários os prémios com que o pintor foi distinguido ao longo da sua

carreira. Ainda em 1952; Bual recebeu o 3° Prémio da Exposição “Um

Americano em Paris”. 1959 foi o ano do marcante “Prémio Nacional Amadeo de

Souza Cardoso”, mas foi também o ano em que conquistou o 3º Prémio do

Sindicato dos Críticos de Arte na “I Bienal de Paris”. Já em 1964, o pintor

recebeu o 1º Prémio do “II Salão de Arte Moderna” da Junta de Turismo da

Costa do Sol, em 1966, o 2º Prémio do “Concurso de Pintura da B.P.” e em

1983 e 1984, o Prémio Artes Plásticas das revistas “Eles e Elas” e “Nova

Gente”, respectivamente. Em 1997, o pintor foi distinguido com o Prémio

Carreira da MAC (Movimento de Arte Contemporânea).

 

A sua obra aparece citada em várias obras de referência, entre as quais os

seguintes volumes: Pintura e Pintores etc., de Fernando Guedes; “Arte

Moderna e Contemporânea Portuguesa - 1900 a 1979”, Dictionaire Grolier,

1972; Dicionário da Pintura Universal, de Fernando Pamplona, 1973; Art,

Larousse; Portuguese 20th Century Artists, de Michael Tannock, 1978; Koogan

Larousse, dicionário enciclopédico, 1980-1981; Dicionário dos Pintores e

Escultores Portugueses, de Fernando Pamplona, 1987; Encontros com Artur

Bual, de Quirino Teixeira, 1989; Abstract Painting, Harryn, Abrarns, Ins.,

Publishers, New York.

 

Fundado pelo empenho de um grupo de amigos, surgiu em 2001 o “Círculo

Artístico e Cultural Artur Bual”, associação sem fins lucrativos, cimentada “no

respeito pela Pessoa deste Artista sempre pronto na generosidade em unir as

artes, os amigos a torná-los mais livres com a sua criatividade.”

Artur Bual morreu em família, na sua casa na Amadora, a 10 de Janeiro de

1999, com 72 anos de idade.

 

A Câmara Municipal de Lisboa deliberou prestar a sua homenagem ao artista

plástico Artur Bual, concretizando-a através de deliberação camarária de

19/12/2001 e edital de 26/12/2001, na freguesia de Marvila, local onde foram

homenageados toponimicamente através do mesmo edital os pintores Eduarda

Lapa, Mário Botas, Luís Dourdil, Severo Portela, os escritores Luís de Sttau

Monteiro e Jorge Amado, o fotógrafo Carlos Gil, o arquitecto Alberto José

Pessoa e o sociólogo Gilberto Freyre.

 

Na freguesia de Marvila, Artur Bual partilha ainda o espaço toponímico com os

pintores Celestino Alves8, José Rodrigues9, Pedro Cruz10 e Gabriel

Constante11, e o escultor Faustino José Rodrigues12, entre muitas outras

personalidades.

 

 

 

Bibliografia

http://www.circuloarturbual.com/

Bual’94 – Catálogo de Exposição

Amadora, Câmara Municipal: 1994

Bual – Extractos de obra

Coordenação de Manuel Salvado

Caxias: Valente Editores, 2005

Encontros com Artur Bual

Teixeira, Quirino

Nova Nórdica, 1989

 

1 O Mestre Lima de Freitas foi homenageado na toponímia de Lisboa através de edital de

18/05/2001.

 

2 O Grupo do Gelo estava sedeado no Café do Gelo, onde se reuniam os surrealistas. Embora

passando por lá durante dois anos, a sua tertúlia reunia-se no entanto na Brasileira do Chiado,

ao longo de décadas. Nesta participaram entre outros Relógio, Cargaleiro, Cesariny e Lima de

Freitas.

 

3 Nesta altura, depois da II Grande Guerra, o abstraccionismo na pintura vingara e cimentarase

na Europa e nos Estados Unidos. Em Portugal, o movimento abstracto ganhou estatuto com

esta exposição, disputando então um espaço na vanguarda da arte portuguesa aos então

consensuais neo-realismo e surrealismo.

 

4 O gestualismo, corrente abstraccionista, constituiu-se num modo intuitivo de pintar que regista na tela os gestos largos e espontâneos executados pelo artista. Foi representado em França por Soulages ou Mathieu, em Espanha por Saura ou Tapiés, e nos Estados Unidos pelos

pintores contemporâneos de Kooning. No entanto, Bual marcou o movimento pela diferença e

inovação da sua pintura.

 

5 Amadeu de Sousa Cardoso foi homenageado na toponímia de Lisboa através de edital de

29/02/1988.

 

 

6 O Papa João Paulo II foi homenageado na toponímia de Lisboa através de edital de

16/11/1982.

 

7 Calouste Gulbenkian foi homenageado na toponímia de Lisboa através de edital de

18/08/1966.

 

8 Celestino Alves foi homenageado na toponímia de Lisboa através de edital de 23/04/1980.

 

9 José Rodrigues foi homenageado na toponímia de Lisboa através de edital de 19/06/1979.

 

10 Pedro Cruz foi homenageado na toponímia de Lisboa através de edital de 29/12/1989.

 

11 Gabriel Constante foi homenageado na toponímia de Lisboa através de edital de 20/08/1985.

 

12 Faustino José Rodrigues foi homenageado na toponímia de Lisboa através de edital de

19/06/1979.

 

 

 

 

António Adriano

 2007

 

 

 

 


 

 

***

 

Artur Bual


“Artur Bual é um dos casos mais frisantes da sinceridade em arte; e os seus últimos trabalhos dão-nos o pintor, na plena posse de bons recursos técnicos e de conhecimentos grandes, a encarreirar por uma senda diferente da seguida até agora. Se se trata de uma evolução para nova fase da vida artística de Artur Bual, ou de apenas uma derivante, daquelas que todos os artistas têm o longo as sua carreira, como que a tomarem fôlego para seguirem mais além, só o futuro no-lo poderá dizer. Parece-nos que nem o próprio Artur Bual será capaz de responder, de tal forma são imperscrutáveis os caminhos do futuro.” (...)


Raul Rego
1967



“...Em Artur Bual, a procura de uma comunicação que esteja à altura da grandiosidade do seu gesto, da opulência das suas formas, da raiva ou da ternura dos grafismos que usa, canaliza o autor para o «underground» onde a verdade canta a melodia maior. Surge-nos, portanto, como iconografia do amor e da violência, do sexo e da fertilidade, da vida e da morte. Ventos de uma raiva preconceituosa podem, depois, apagar as marcas e serenar os sinais. O ser vigilante pode assumir a máscara e nascer nimbado de Paz logo que, rompendo a madrugada, se ocultam os astros e os rituais. A obra, no entanto, fica. É ela que acende o submerso e nos restitui a lucidez da Liberdade.”


Edgardo Xavier


Artur Bual


(...) “Pintor por instinto, Artur Bual atinge a maturidade do seu próprio estilo, consequente de uma longa e persistente prática. Pela profundidade humana e verdade intrínseca que exprime, a sua pintura não nos deixa indiferentes; antes nos torna cúmplices do drama em que se envolve e nos envolve, através da problemática estética que suscita. Em algumas obras mais audaciosas e menos conhecidas, a pintura integra a colagem de materiais pobres, formando relevos que exaltam a aspereza da matéria e a violência agressiva da mancha. Sobre não importa qual suporte, tudo lhe serve de pretexto para intervir com a sua marca pessoal. Em alguns aspectos, a sua pintura mais descontraída, «feia» e incómoda, aborda a «bad-painting» e o neo-expressionismo selvagem, jamais desvinculado da emoção, que é o acto de pintar em concordância com a própria vida.”


Eurico Gonçalves
Fevereiro 94

 

 


 Bual, historicamente falando

“(...) uma lista de pintores historicamente representativos das várias tendências da pintura abstracta em Portugal seria sempre incompleta sem o nome de Bual. Isto independentemente do juízo de valor que se queira fazer sobre a sua obra (embora, a meu ver, também pelo facto de se tratar de um dos maiores pintores portugueses desta segunda metade do século). A razão é que a pintura de Bual é a primeira, e ainda a mais importante, referência do gestualismo da pintura portuguesa.” (...)

 Eduíno de Jesus

 
Artur Bual – por Álvaro Lobato Faria

“Em nenhum momento ARTUR BUAL deixa escapar a sua ligação fundamental com a pintura. Do ponto de vista das suas evoluções BUAL tem vindo a ser um intransigente pesquisador de verdades e de liberdades interiores. Se tivéssemos que estabelecer um denominador comum para os caminhos que percorreu até agora, diríamos que BUAL é um poeta. É impossível distinguir, na sua obra, o princípio e o fim da pintura e da poesia. A forma pictórica acaba por ser a tradução visível de uma imensa liberdade imaginativa. As obras de BUAL materializam múltiplas possibilidades interpretativas. Por serem intrinsecamente livres, estimulam a liberdade imaginativa do observador. A sua força estética, a sua qualidade artística mais íntima, nasce da convivência entre formas ricas e espontaneidades aparentemente incontroladas.“


Texto do catálogo da exposição “ Arte Gráfica do Bual “ / 97
 

Movimento Arte Contemporânea

 

 

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BUAL,

o carisma do verdadeiro Pintor –

por José Eliseu


“Onde quer que esteja há sempre uma pequena ponta de lápis, um bico de esferográfica e depois o desenhar contínuo, quer seja em simples toalhas de papel ou meros guardanapos, numa insaciável sede de criar, incontrolável, que não se esgota. Na desarrumação ordenada do atelier as cores fervilham. Nas latas, os pincéis misturam-se. A paleta não existe, em seu lugar um tampo de mesa serve a alquimia desenfreada das tintas, que gestos rápidos, enérgicos, deixam a trincha executar flexões audaciosas, empastamentos de delírio em cores vibrantes e fortes, que os salpicos e escorridos de que tanto gosta roçam o sumptuoso e o inimitável. Trata-se de uma pintura séria, de um gesto livre, mas trabalhado, onde o pintor mergulha com toda a sua carga humana, numa pureza interior de grande autenticidade.“


in Revista Medicina & Saúde, Junho de 1998

 

 

***


OS Cristos de Bual 

 por Armando Ramos


“Se os pincéis e as tintas pudessem derramar uma lágrima só que fosse teriam chorado no dia em que Artur Bual morreu, porque, neste século XX prestes a findar, ele foi, entre os maiores, um dos pintores que melhor os souberam manejar. As suas telas são disso o melhor testemunho, a prova irrefutável.


Ainda que a sua obra se possa caracterizar pelo expressionismo gestual, figurativo ou abstracto, não se pode dizer que seguisse qualquer escola. A única escola ou movimento que seguia era a estrela da arte pujante que existia no seu interior – um vasto mundo de criatividade alicerçado no talento e no génio.“


In “ A Voz do Domingo “
7 de Março de 1999

* * *

Desenho - "Cristo"

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