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sexta-feira, 18 de Maio de 2012
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JOSÉ PÁDUA
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Exposições Individuais - Algumas
1962 Centro de Cultura e Arte da Beira (Moçambique)
1964 Casa dos Estudantes do Império, Lisboa
1965 Book Centre Salisbury (Zimbabwe).
1965 Rhodes Nacional Galery. Salisbury (Zimbabwe).
1969 Tara art. Centre, Salisbury (Zimbabwe).
1973 Palácio Foz Lisboa.
1973 Galeria do turismo, Braga-
1974 Salão da Comissão do Turismo. Braga
1977 Museu de Angra do Heroísmo, Açores
1979 Galeria de Arte "O País" Lisboa
1981 Galeria Bruce, Linkoping (Suécia).
1982 Galeria 101, Malmó (Suécia)
1982 Carlton Centre,l Joanesburgo (ÁfricadoSul)
1983 Galeria Little Abbey, Durban (África do Sul)
1985 Galeria Grade, Aveiro.
1986 Oficina de arte, Portimão.
1988 Galeria de Arte Roca, Marinha Grande
1988 Galeria Porto Feyo, Porto
1989 Galeria Ara, Lisboa.
1991 Galeria Entre Muros, Porto.
1991 Galeria de Arte Bule - Bule, São João da Madeira.
1994 Galeria de Arte Século XVII, Leiria.
1994 Galei ia de arte Gravura, Lisboa,
1995 Galena Dundalh, Baltimore (EUA)
1996 Galeria de Arte Século XVII, Leiria.
1996 Associação Fotógrafos de Moçambique, Maputo
1997 Galeria de arte Século XVII, Leiria
1998 Embaixada de Portugal em Maputo (Moçambique)
1999 Galeria Pepper's, Caldas da Rainha.
2002 Galeria Pepper's, Caldas da Rainha.
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A FOME...
"DAR UM PEIXE OU ENSINAR A PESCAR"
O QUE FAZER?

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NÃO É A FOME QUE MATA
É O TEMPO DA FOME QUE NOS VAI MATANDO
É O SILÊNCIO NA DESCULPA, DOS OUTROS
É A PELE DISTANTE, DOS OUTROS
A OUTRA VIDA QUE NÃO NOS PERTENCE
NÃO É A FOME QUE (NOS) MATA
À DISTÂNCIA DO SOFRIMENTO, DOS OUTROS
SÃO OS OUTROS, AQUELES QUE CARREGAM A FOME
A NECESSIDADE, DOS OUTROS
AQUELES QUE SÃO, OS OUTROS COM FOME
PEDINDO
OUTROS
OUTRO
OUTR
OUT
OU, OS (OUTROS)
(AQUILO DA FOME…)
(Desenho de José Pádua e texto de Eduardo Nascimento)

Palavras com flores para José Pádua
António Sopa
(À memória de Joaquim Elias
Vagueiro Rocha
e Rafael Nunes de Carvalho)
Falar de José Pádua é regressar inevitavelmente à minha cidadezinha natal, onde vivi até ao princípio da minha idade adulta. Este regresso, tantas vezes feito por via da memória provoca-me sempre sentimentos contraditórios, que se repartem ainda agora entre uma alegria e tristeza imensas.
A primeira chega-me de uma infância e adolescência extraordinariamente felizes vistas à distância que o tempo impõe. A segunda, da maneira como a povoado e os seus habitantes foram encarados pelo novo poder, nascido com a independência do país, e sobre a repressão que se abateu então ali, de maneira completamente injustificada. Fui um erro tremendo, penso, apesar de reconhecer haver alguma razão para encarar a cidade como um antro diabólico. Dali saíram os Simangos, os Gwenjeres e os Murupas: ali viveu e desenvolveu actividade política o engenheiro Jorge landim: ali se criou nas vésperas dos Acordos de Lusaca, o Partido da Coligação Nacional, juntando os brancos reaccionários aos «negros oportunistas., com vista a defrontar-se com a Frente de Libertação de Moçambique.
Esta é apenas uma meia verdade. Lado a lado com essa gente houve sempre penou que se posicionaram numa via completamente diferente procurando combater o sistema, gerador de injustiça e discriminações. Poderíamos apenas falar do caso de D. Sebastião Soares de Resende o primeiro bispo da Diocese da Beira, mas existem igualmente outros, dentro e fora da Igreja Católica que seria conveniente um dia recordar. Mais timoratos com certeza. Muito menos numerosos, sem dúvida. Mas o seu exemplo e a sua memória permanecem em alguns de nós.

A cidade da Beira era nos princípios da década de 60 - altura em que comecei a olhar para o vasto mundo , uma povoação em franca expansão com um acentuado crescimento populacional, fruto Fundamentalmente da política de abertura do território aos grandes interesses internacionais. A cidade viria depois a sofrer um refluxo, nos finais da mesma década motivada pelas sanções da Inglaterra ao porto beirense em resultado da independência “branca” da Rodésia.

Existia ainda na cidade um ambiente familiar, onde toda a gente praticamente se conhecia e onde os relacionamentos se estabeleciam numa base de confiança mútua. Estas circunstâncias permitiam, mesmo a um adolescente como eu, ter contacto com as “personagens” que marcavam a vida da cidade, e conhecer as histórias que pairavam sobre as mesmas. Eu próprio convivi com alguma dessa figuras, mas julgo ser inútil aqui fazer uma descrição dessas vivências. No meu caso, esse contacto era ainda facilitado pelo prestígio que a minha família tinha ao nível da cidade, que me permitia entrar em contacto com as mesmas, nem que fosse apenas por via da memória familiar. Toda esta situação virá a alterar-se com a chegada de novos colonos. Lembro-me ainda como os residentes mais antigos se insurgiam contra os hábitos trazidos pelas novas vagas de emigrantes portugueses.

Do ponto de vista cultural, a cidade tinha fundado algumas associações, com vista a dar resposta a algumas preocupações dessa índole. Mas m um movimento ainda incipiente e bastante frágil, assente fundamentalmente na “carolice” de um pequeno grupo de entusiastas. Assim, o teatro era realizado na Casa do Algarve, por um grupo de sócios daquela colectividade, já que o Grupo Dramático Actor Eduardo Brazão há muito que se encontrava moribundo; o cinema amador era desenvolvido no Cineclube da Beira, o mais antigo da casa oriental; e as artes plásticas no Centro de Cultura e Arte. A partir de Setembro de 1961, o movimento cultural gravitará a volta de um projecto ambicioso, fruto de uma ideia levantada pelo escritor Nuno Bermudes, visando a construção de um Auditório e Galeria de Arte. Este entusiasmo espalhou-se a outros locais do território, como Vila Pery (actual cidade do Chimoio), onde se pensava então construir uma Biblioteca e Galeria de Arte, e a Lourenço Marques, onde o arquitecto “Pancho” Miranda Guedes chegou a apresentar à vereação da Câmara Municipal daquela localidade, em 12 de Julho de 1962, um anteprojecto para uma galeria artística.

O mundo literário e artístico beirense reduzia-se apenas a meia dúzia de pessoa. Na literatura, saltam-nos de imediato os nomes de Nuno Bermudas e Fernando Couto, com uma actividade muito intensa, tanto na rádio como nos jornais. Estes tinham sido os coordenadores de duas colecções de prosa e poesia, editadas por iniciativa da sociedade do Notícias da Beira. Uma outra iniciativa local, a revista Paralelo 20, editada a partir dos finais dos anos 50, agregará a sua volta os vultos intelectuais do território. Muito menos visíveis, não deixando por isso de ter lugar neste grupo, estavam o Ascêncio de Freitas e o Dr. Jorge Vila. O primeiro tinha ficado conhecido a partir de um livro de contos, cães da Mesma Ninhada, editado pelo Notícias da Beira em 1960. O Dr. Jorge Vila era poeta, ao que me parece sem qualquer livro publicado em Moçambique. O seu prestígio vinha fundamentalmente dos prémios literários ganhos tanto em Lourenço Marques como na Beira. Eugénio Lisboa passou igualmente por aqui, enquanto funcionário dos Serviços de Electricidade, e, pelo que sei, através de familiares, exerceu alguma actividade de carácter cultural.

No jornalismo, o Noticias da Beira viria a recrutar António Gouveia Lemos, o profissional mais prestigiado de Moçambique, que juntará à sua volta um grupo de jovens repórteres. José Craveirinha virá a escrever neste jornal, por iniciativa do primeiro, após a sua saída da prisão. Pela mesma altura, Ricardo Rangel encontrava-se também aqui, ao serviço do Diário de Moçambique. então o jornal mais combativo da imprensa moçambicana.
Nas artes plásticas, a situação era em tudo semelhante. O Centro de Cultura e Arte da Beira, fundado em 1961, virá a exercer uma meritória actividade a partir do ano seguinte, com a realização de cursos de iniciação artística, em desenho, pintura, escultura, iniciação musical e ballet. Os nomes mais representativos neste domínio eram: José Pádua, Jorge Vasconcelos e, mais tarde, Shikhani, que virá a fixar-se na Beira em finais de 60/princípios de 70. Anteriormente tinha havido apenas Rui Filipe (Cândido de Figueiredo), já nascido naquela cidade, e cuja formação artística se tinha feito com mestre Frederico Ayres, tendo realizado exposições em Lourenço Marques e Beira.

É, pois, neste ambiente cultural, sem grandes memória e raízes, que surge José Pádua. Aqui realizará a sua primeira individual em 15 de Julho de 1962, apresentando 15 óleos, 11 desenhos e 60 gravuras no edifício da Associação Comercial da Beira, logo imediatamente a seguir a uma primeira tentativa para expor em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Em meia dúzia de anos, a sua actividade estender-se -à a Lisboa (onde realiza exposições na Casa dos Estudantes do Império, em 1963, e na Secretaria de Estado de Informação e Turismo, em 1973), em Salisbúria (1965 e 1969) e em Joanesburgo (1971) Portugal, Rodésia/Zimbabué e a África do Sul serão para sempre os seus locais de itinerância regular, onde tem mantido um público fiel à sua arte.
Como profissional honesto que é, José Pádua tinha uma percepção aguda das suas limitações já que o seu talento na inegável. Estas lacunas, diga-se, tinham muito mais a ver com o ambiente do que propriamente com o artista. Este tentou desde cedo confrontar a sua obra com o que era feito noutros locais, ao mesmo tempo que procurava o seu aperfeiçoamento profissional. Assim, logo em 1963, fará um estágio em diversos géneros de gravura na Cooperativa de Gravadores Portugueses, sob a orientação de Alice Jorge e Júlio Pomar.
Uma outra vertente da sua arte, lado a lado com as exposições, tem a ver com a realização de murais e baixos-relevos em edifícios particulares e públicos. Sem pretender ser exaustivo, e recorrendo-me apenas da memória, posso referir o Pavilhão de Portugal em Blantyre, a delegação do Banco de Crédito Comercial e Industrial da Beira, o baixo-relevo e o painel da sala dos VIP do aeroporto da Beira, a Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra e da Piscina do Clube Ferroviário da Beira.
O seu prestígio, ao nível local, era muito grande tendo sido escolhido entre os «Os Doze Mais da Beira” em 1967. Este reconhecimento exprimiu-se ainda de outra maneira, com a publicação em 1969, pelo Centro de Informação Turismo, de um álbum composto por dez gravuras independentes, apresentado por Fernando Couto.

O meu conhecimento de José Pádua fez-se, durante muitos anos, através da sua obra. Tanto na casa de meu pai como do meu tio mais velho, Eugénio, ambos residentes na Beira, existiam obras suas. Meu pai tinha algum óleos, de grandes dimensões, destacando-se, entre eles o rasto de uma jovem ruga, pintada numa técnica utilizada durante algum tempo pelo pintor. inspirada no
pontilismo". Para além destas obras, existiam ainda tinta-da-china, aguareladas e muito pouco conhecido., alguns painéis em esmalte e cobres (rodesianos / zimbabweanos?) pintados. O que me fascinou sempre na obra de Pádua foi o desenho, de uma aparente facilidade, e o colorido, que dão à sua obra um extraordinário equilíbrio e leveza. Seria injusto não deixar de referir que provavelmente, o meu gosto pela pintura se deve a ele e a um outro «esquecido». Vagueiro Rocha, de quem recebi a minha primeira caixa de lápis de cor.
Quando o conheci fiquei irremediavelmente fascinado pela sua facilidade de convívio e generosidade. Pádua espalha a sua obra por todo aqueles que manifestem interesse pelos seus -boneco». Eu próprio fui beneficiado com alguns desenhos, e de outros que me foi posteriormente oferecendo sempre que nos encontramos. Estas qualidades mantiveram até hoje, juntamente com as doenças que sempre lhe conheci. Sei que a ausência desta terra. do mundo de trabalho que soube criar, o deixaram profundamente amargurado. É coisa de que fala poucas vezes, mas nos seus olhos de homem bom existirá para sempre uma imagem de Moçambique!
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José Pádua
PÁDUA, PINTOR POR GRAÇA DOS DEUSES
Fernando Couto
Ao José Carlos Pádua, simplesmente Pádua, os deuses aplicaram um castigo e também concederam uma graça. O castigo de, sem descanso, desenhar e pintar praticamente todos os dias e em quaisquer condições, tudo o que seduzia os seus olhos e, assim, tocava a sua sensibilidade. A graça de umas mãos que sabiam transpor para o espaço vazio aquilo que tocava a sua sensibilidade e era predominantemente o homem comum e sua vivência, primeiro na cidade da Beira e, mais tarde, em Lisboa e outras terras.
Nascido na Beira em 1934, bem cedo começou a transportar para os cadernos escolares aquilo que via e o marcava pelo sofrimento, pela alegria, pelo movimento, pela quietude, pela cor ou pela tez negra dos seus conterrâneos. Autodidacta, foi descobrindo os grandes mestres da pintura, estudando-os, experimentando e assim foi enriquecendo a sua capacidade de expressão.
Não perdeu, por isso, a sua originalidade conservou-se fiel ao que tinha de mais íntimo a sua necessidade de comunico com os outros remando sempre o pequeno mundo do dia-a-dia da gente negra da Beira, a que ainda hoje com 25 anos de separação, permanece fielmente devotado.
Duas qualidades inatas conservam e, certamente, só desaparecerão com a sua morte: uma modéstia insuperável e uma simplicidade que chega a confundir quem o conhecer mal (para vencer a sua modéstia, foi preciso que os amigos quase o empurrassem para a sua primeira exposição individual).

Amizade e colaboração
Entre nós nasceu uma amizade que remonta aos primeiros anos da década de 60 ou terá mesmo nascido antes e permanece sólida, fraternal.
A cada passo, visitava-o no seu modesto e acanhado atelier, à entrada do Bairro do Esturro, naquela Beira que sendo já a segunda cidade de Moçambique nem por isso deixava de ser uma cidadezinha colonial. Nas visitas, acontecia sempre o duplo fenómeno de ficarmos isolados do mundo exterior e também essa variada vivência de o mundo exterior ser representado ali dentro através dos quadros e desenhos que ele, infatigavelmente, ia criando.
Também se repetia a cena, numa espécie de ritual, com a sua invariável resposta: tenho por aí umas coisitas, poucas…” E, aos poucos, eu ia descobrindo as “coisitas”, poucas que até já eram muitas, entre esboços de quadros, desenhos e mesmo obra acabada.
Aos amigos cedia trabalhos com uma espécie de desprendimento que podia fazer-nos sentir que valia muito mais a amizade do que a sua obra.
À minha apetência nunca deixou de responder com a oferta desinteressada de alguns dos seus trabalhos, principalmente os que se destinavam a ilustrar trabalhos publicados no jornal Notícia de Lourenço Marques. A isso, a essa amizade fiquei a dever o inestimável favor de conceber a capa e ilustrações do livro de poesia Amor Diurno, pequeno conjunto de nus de fina elegância e exalando um perfume de beleza sem sombra de pecado e também as capas das colectâneas Feições para um retrato e Monódia.
Sempre graciosa e prontamente satisfazia os pedidos de ilustração que, na Beira, lhe faziam todos quantos escreviam e suspeito que nem ele nem os beneficiários saibam quantos foram.

Fascínio de Moçambique
A saudade de Moçambique consome-o com idênticas ternura e mágoas que sentem muitos dos que amaram profunda e desinteressadamente esta terra e que daqui saíram contrafeitos.
A sua memória é perfeitamente capaz de reconstruir cenas que profundamente o marcaram, umas dramáticas (por exemplo, aquela do estropiado que, apesar disso, joga futebol com auxílio da única perna e da muleta), outras de uma efusão de visceral alegria, como são as de dança ou, mais simplesmente, de quem toca, por vezes, instrumentos improvisados de latas vazias.
Este álbum, Fascínio de Moçambique, substantiva o profundo sentimento do pintor pela terra onde nasceu e onde viveu os melhores anos da sua vida, como confessa, no jeito daquela modéstia atrás referida e com uma sinceridade comovente.
A aguarela é a modalidade do álbum e, nela Pádua ganhou uma mestria inconfundível, sem que isso represente menoridade na pintura a óleo ou acrílico, na modelação de murais e até também na decoração.

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Pintar a poesia
Mia Couto
A pincelada breve, magra, sugerindo apenas a forma e indicando a cor. Isso eu busco nos quadros de Pádua. Como procuro na poesia que vive apenas de essência, depurada de excesso, sacudida de artifícios. Eu leio a pintura de Pádua como quem olha palavras e as vê voláteis, escapando do território da página.
E me pergunto que arte é essa que não será o preencher de formas o vazio, mas o exacto oposto. Como se houvesse um desenho inicial, uma tela cheia de formas e traços e ele, ao lugar de pintar, raspasse, em vez de acrescentar, apagasse, ao invés de rendilhar, simplificasse. Até a forma ficar assim, leve e fugaz, e pedisse ao papel não o suporte de fixação mas um movimento, um impulso de asa.
Nas linhas do pintor moram lugares da minha infância, os subúrbios dessa meninice, a Munhava, os meninos brincando com arcos, os pescadores esguios, as mulheres carregando água como se elas e o cântaro fossem um único desenho. E um rio que poderia ter o nome de Púngè. Mas que se chama tempo e vai escrevendo em nós uma caligrafia que é a saudade do tempo em que a vida não doía. Como se a vida fosse unta tela onde a mão divina do pintor salvasse do branco esse inacabado desenho que nós somos.

Revendo na sua obra
O jovem Pádua
Malangatana
Pádua soube e sabe tão bem transportar as vivências dos bairros Esturro, Chipangara, Makurungo..., que na Beira nem chegam a ser suburbanos que, ao olharmos a sua obra, apetece dizer:
“Cumprimentos àquele meu primo da Beira”.
Com a sua obra, o artista vinca memórias de quem o viu crescer naquela cidade e da própria urbe, recriada desde os tempos da sua juventude, quando o conheci.
As suas pinturas transportam os cantos tristes e alegres e as danças em figuras dedilhadas a pincel e canetas. Para quem viveu e vive na Beira olhar as sua pinturas é identificar-se na estética representada naquela monocromia tipicamente "padual": aquelas mulheres esguias, pilando com os filhos às costas aqueles homens de chapéus de palha, os seus músicos tocando violas feitas de latas vazias... tudo nos faz sentir a Beira, aquela Beira de que sinto saudades.
São figura esguias, mas nada à Giacometti nem Maria da Luz, que na então Lourenço Marques pintava assim. Mas Pádua é Pádua, só ele, inconfundível naquelas suas figuras quase silhuetas, mas onde o domínio da aguarela é visível, repleta de uma profunda sedução, às quais ele imprime aquela sensualidade de quem dança mesmo quando só anda, tal é a sua integração na paisagem humana que ele continua a amar.

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José Pádua
um pintor de afectos
Álvaro Henriques
A primeira vez que vi, numa galeria de Lisboa, uma pintura de José Pádua, fiquei, durante uns bons minutos, a apreciá-la e a tentar catalogar a corrente ou as influências que moviam a veia criativa do pintor. Tratava-se de um nu feminino feito em técnica mista com traços fortes e disformes a tinta-da-china e tons de aguarela muito suaves, sugerindo mais do que mostrando, criando um todo elegante discreto, mas ainda assim com marcante carga erótica.
Numa outra altura, na companhia de uns amigos, fui almoçar a um restaurante da baixa de Lisboa e deparei-me com mais umas pinturas de José Pádua. Desta feita, eram uns retratos da capital portuguesa, onde sobressaiam as suas ruas estreitas e íngremes com os seus eléctricos amarelos antigos. A minha vida profissional trouxe-me até Moçambique e, por força dos meus contactos com pessoas e instituições, fui descobrindo um outro José Pádua, ou, como aqui se diz, o Pádua.
Vi o Pádua no aeroporto de Maputo, no aeroporto da Beira, no Banco de Moçambique, em casas de amigos, eu sei lá!
Mas o meu coup de foudre pelo Pádua aconteceu em Joanesburgo. Entre os amigos que ele e eu temos na África do Sul, alguns possuem obras do Pádua de fases muito distintas, algumas delas muito belas. Quando lhes perguntei onde poderia, também, adquirir algum Pádua, a resposta saiu lesta e pronta: fala com o Ramiro. Eu não conhecia o Ramiro, mas um dia consegui descobri-lo no seu atelier de projectos de decoração, ali para as bandas de Ellis Park, onde reside uma boa parte da comunidade portuguesa de Joanesburgo. Já me tinham dito que o bom Ramiro Oliveira era o grande amigo do pintor na África do Sul. Disse-lhe ao que ia.
Amavelmente, mostrou-me um acervo de obras do Pádua que pôs à minha disposição, colocando-me completamente à vontade. Neste dia terá começado a nossa amizade.
É óbvio que ao longo de todo este tempo me deixei contagiar por muitas das propostas estéticas das obras do Pádua, algumas das quais pude passar a ter comigo, outras por ter tido o privilégio e o prazer da sua fruição,
Neste percurso de descoberta artística do Pádua não encontrei, ainda, saída para poder defini-lo como pintor, tantas me parecem ser as influências que na sua obra ressaltam, que poderão ir de Matisse até Vieira da Silva. Mas uma coisa eu sei: o Pádua é um observador atento da vida, de muito do que dela emana, e pinta-a com um enorme carinho.
Umas vezes cria-a em tom alegre e dançarino (veja-se a fase das danças tradicionais de Moçambique).
Outras, dá-lhe modos melancólicos, tristes ou, até, dramáticos (veja-se a fase em que faz sobressair a marginalidade os bairros de lata de Lisboa ou o êxodo das populações moçambicanas fugidas à guerra).
Em muitas ocasiões ama as mulheres na volúpia das suas formas, com riscos negros e cores e gestos doces.
Quase me apetece pensar que o Pádua pretende salvar a espécie humana, tão carregada está de humanidade a sua arte e a solenidade com que a prende à vida.
Se bem que o real transborde na obra do José Pádua, não creio que seja ingénua a sua idealização do real.
O José Pádua pinta o que ama, embora na sua pintura haja, creio, um tríptico que ele assume com enlevo particular: Moçambique, Lisboa e a Mulher.
A arte do José Pádua é nostálgica como o tempo que lhe vai na alma e será por isso, com a sensibilidade "proustiana" que o acompanha, que o tenho, para mim, como um pintor generoso de afectos, só, desavindo, único.


Pádua
José Forjaz
Uns cozinham, outros plantam, uns rezam, outros pintam. Tudo é profissão e com amor praticada, toma-se arte. Arte menor, arte maior, artesanato, artificio. artimanha... .
Ma será que há artes menores e maiores? Talvez que não, e o segredo desta indistinção está na dedicação e no trabalho.
Este nosso pintor desenha, este nosso desenhador pinta. E a cor é desenhada e o preto e branco desvenda-se colorido. Do que faz são tudo e só impressões. Do gesto, do momento, da luz, do sofrimento e da alegria.
O que mais nos atinge, mais fundo, é a aparente facilidade, o natural do gesto, o simples. Nos pequenos exageros quase "giacometianos" (que me perdoem a ingénua referência) fica ás vezes a sombra de uma fotografia, instantâneo desfocado, tremido, solarizado. Mas, mais atentos, percebemos-lha a precisão e controlo, a falta de acaso, a profissão.
Lembro-me que, nas filas do desenho de estátua e de modelo das primeiras aula da nossa Escola de Belas-Artes depressa se arrumaram os do jeito dos do trabalho, os que sofriam com o que não faziam dos que deixavam a mão fazer, o fácil do gesto aprendido e domesticado.
Mais tarde, talvez mesmo pouco mais tarde, fomo-nos arrumando doutros modos, mas a regra dessa arrumação foi inexoravelmente a do trabalho, a da pressão interna para dizer e descobrir o que dizer e dizer o que se descobre.
A mão fácil ficou no fácil. A mão pesada foi-se aligeirando e assumindo mais profundamente a pesada responsabilidade do papel branco.
Pádua é dos que respeitam o papel. Por isso o respeitamos.

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A obra reflecte
a personalidade poética
Augusto Cabral
Os antropólogos diferem de opinião quanto a considerarem quando é que o homem deixou de ser animal e passou a ser humano. Não sendo antropólogo nem sociólogo, é meu pensar que o homem como espécie biológica só se tomou verdadeiramente humano quando despertou nele o sentido do belo, pois é essa característica que todos possuímos, uns mais outros menos, que nos torna capazes de nos libertarmos das amarras físicas que nos prendem ao mundo material e nos transportam para um plano espiritual, puro e liberto das necessidades mesquinhas da luta peja sobrevivência. É aquela capacidade que ainda ninguém definiu e que se chama arte.
Acontece, porém, que nem todos nós somos capazes de materializar os nossos sentimentos de forma a transmitir o que existe de mais puro e elevado na alma de cada um de nós. É essa capacidade que distingue um artista, seja ele poeta, músico ou artista plástico. No caso presente, Pádua, porque é pintor, tem à sua disposição todo um conjunto de elementos plásticos que magistralmente é capaz de harmonizar de uma forma bela e diferente qualquer tema, por mais vulgar que seja.
A composição, o desenho e as subtis nuances do colorido oferecem-nos um nunca acabar de detalhes, que escondem cada um deles um segredo subjectivo das múltiplas situações vividas ou puramente imaginadas.
Observada no seu conjunto, a obra deste artista reflecte a personalidade impregnada e a poesia de quem lhe deu forma.
Na génese de uma obra de arme é factor dominante o estado de espírito no momento de quem a executa e por isso mesmo reflecte sempre momentos de tristeza, de ansiedade ou de euforia, independentemente do tema escolhido.
Por essa razão, ao contemplarmos no seu conjunto a obra de Pádua, podemos descortinar toda uma vivência de alguém que dedicou parte da sua vida a dar aos outros um pouco de si próprio, na medida em que cada trabalho é uma confidência que se faz a um amigo.
Nos trabalhos presentes, o artista utiliza a difícil técnica da aguarela que usa com mestria. Bons aguarelistas são raros. A pintura em aguarela é espontânea e transparente.
Não permite fazer "emendas" ou correcções. Na tinta branca, que é um elemento indispensável na paleta de qualquer artista, não existe aguarela. O branco é o próprio papel e as tonalidades são dadas por maior ou menor transparência.
Nos temas escolhidos é elemento fundamental a figura humana que é tratada com um desenho simples, mas correcto, tanto nas figuras em movimento como em posições mais estáticas. O desenho da figura, embora simplificado, é anatomicamente correcto e harmonioso. A paisagem tem grande poder de empatia, especialmente para aqueles que conheçam o ambiente representado. e também na paisagem a figura humana é um elemento fundamental. Embora por vezes a sua inclusão possa parecer acidental, na realidade é um elemento de equilíbrio da composição. As pinturas de Pádua são como as composições de Chopin: não é possível separar a virtuosidade da linha melódica. Da mesma forma, nas suas pinturas os elementos plásticos constituem um todo com o seu talento e domínio técnico.


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Falar de Pádua?...
Naguib
Talvez começando do princípio:
Conheci o Mestre Pádua nos finais dos anos 60, quando ele era professor de desenho. Já era ele um grande Mestre, figura de relevo na longínqua Beira desses anos, enquanto eu,apenas um jovem aluno.
Um fosso de cerca de 30 anos sem convívio nos separou, sem eu, contudo, deixar de seguir o seu trabalho. U ma obra aqui, outras em casa de amigos, aquele mural de rua em Lisboa..., transparecem no todo uma escola por ele deixada, onde se destacam grandes figuras da plástica moçambicana, como o Santana Afonso, o Miguel César…
Pádua, Artista de temas populares, com sentido de movimento, profundidade plástica e temática, reflecte o carácter de uma figura cheia de esperança, ligado e comprometido com as causas dos homens humildes, onde vai buscar o sorriso das crianças no “faz de conta” que é brinquedo, a anca firme no caminhar da "mamana" vendedeira, o vigor de um grupo de pescadores com os seus tradicionais chapéus de palha, num mundo carregado de expressionismo.
Com um pincel firme, gestos precisos, leitura imediata e uma forte carga emocional, Pádua parece desculpar-se às figuras que pinta, sugerindo um diálogo profundo antes da autorização dos personagens que cria: tal é a delicadeza do trato que dá à obra acabada.
Do humanismo sem fronteiras de Pádua, noto uma paixão exclusiva: A ARTE..



José Pádua
Pinturas inspiradas na fotografia de Ricardo Rangel - Moçambique

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Desenho do Mestre José Pádua
Encontrem a fome, no limite de tudo
Abandonem o cerco da palavra desgraça, do “coitadinho ao que chegou”
Vejam lá bem como ele era uma criança que ninguém pensava chegar a este ponto.
Vasculhar caixotes do lixo dos outros perto do seu próprio lixo sem o saber.
O lixo da cidade no caixote sábio do segredo e desejo abandonado, o deita fora que não serve o arrepio ácido da cidade, onde um dia a viela era mais um jogo de crianças perdidas.
Encontrem a fome deste vagabundo perdido, dentro do pária de quase solidão completa, acompanhado pelas ratazanas e corvos do outro lado do inferno.
E a droga misturada nas beatas que a bebedeira deixou escoar para o lodo do asfalto.
Vejam a beleza das gorduras das superfícies de plástico, das grandes cidades a competirem com a beleza esquálida de Biafra e outros locais, onde as moscas fazem morada e embelezam os premiados de fotografias da “World Press”, com os leitores comendo cachorros quentes, na Bolsa de Valores de todas as cidades, onde se vendem diamantes e refrescos, valendo muito na publicidade do engano dos horrores de lucro fácil.
Encontrem estes pedaços dos “doidos” abandonados à nascença, quando discutimos o tempo de retorno, quando éramos fáceis em contornar a nossa comodidade aparente.
Acordar é mais difícil que adormecer, por isso estes cenários vivem connosco como um nevoeiro que incomoda e não diz nada senão a memória de espelharmos.
Continuamente, como um reflexo que gostaríamos de nunca mais acontecer…
(Somente um outro perdido com muitas histórias que um dia ousou nascer.)
Eduardo Nascimento com j. Pádua
Maio 07
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A trouxa do abandonado, na porta das traves das trevas, carregando o tempo do repouso nos nós do tempo, onde os pássaros esperam pelas migalhas da abertura, quando o descanso está inundado de algumas flores que ficam cansadas de rebentarem com algum perfume de solidão.
A vida sobre os jardins, que ainda existem são teimosias fieis dos aglomerados sensiveis que vivem ocultos nas cidades.
Onde namoraram sem que a razão os incomodasse de outros perigos, senão o contemplar a estação das chuvas como uma parecida com a última primavera...
Ah! este repouso do abandonado...
eduardo nascimento
maio2007
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